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quinta-feira, fevereiro 05, 2004

Para Ti 

A poesia como o amor faz-se na cama
Os seus lençóis desfeitos são a aurora das coisas
A poesia faz-se nas matas

Tem todo o espaço de que precisa
Não este mas o outro condicionado por

O olho do milhafre
O orvalho sobre a cavalinha
A lembrança duma garrafa de Traminer embaciada em bandeja de prata
Uma alta vara de turmalina sobre o mar
E a estrada da aventura mental
Que sobe a prumo
Pára e fica logo coberta de mato

Isto não se apregoa aos quatro ventos
Não é conveniente deixar a porta aberta
Ou chamar testemunhas

Os cardumes de peixes os bandos de melharucos
Os carris à entrada duma grande estação
As luzes das duas margens
Os sulcos do pão
A espuma da ribeira
Os dias do calendário
O hipericão

Acto de amor e acto de poesia
São incompatíveis
Com a leitura do jornal em voz alta

O sentido do raio de sol
O clarão azul que liga as machadadas do lenhador
O fio do papagaio de papel em forma de coração ou de laço
O batimento ritmado da cauda dos castores
A diligência do relâmpago
O arremesso dos confettis do alto de velhas escadas
A avalanche

A câmara dos sortilégios
Não cavalheiros não é a oitava Câmara
Nem os vapores da camarata ao domingo à noite

Os passos de dança transparentes por cima dos mares
A demarcação na parede dum corpo de mulher ao lançar de punhais
As claras volutas do fumo
Os anéis do teu cabelo
A curva da esponja das Filipinas
Os nós da serpente vermelha
A entrada da hera nas ruínas
Tem todo o tempo à sua frente
O abraço poético como o abraço carnal
Enquanto dura
Impede toda a fugida sobre a miséria do mundo


André Breton 1948

quarta-feira, fevereiro 04, 2004

O FIM DO MUNDO 

Quando se diz que um dia acaba e outro começa nem sempre compreendemos que mais do que os dias as vidas dependem de uma hora de acordar. Em 15 dias combati o fim de uma vida. Durante 15 dias as letras foram a minha morfina. Obrigado ao Dato pelas doses que me foi enviando de vez em quando...


4 de Janeiro de 2004 - faltavam 15 dias para o fim do mundo.

1. Jean Paul Sartre, quando inquirido sobre a liberdade total do Homem ou as suas prisões de origem genética ou ambiental, afirmava que o Homem era no seu todo livre no seu poder de decisão e actuação. Mas, acrescentava logo a seguir, escolhesse o Homem o caminho que escolhesse, sempre a sua decisão seria a errada. Era esta a natureza intrínseca da Humanidade. E comigo penso que as provas se começam a mostrar.
Durante 1 ano pensei nesta partida como o voo da liberdade, até descobrir que a liberdade e a felicidade estão exactamente donde pretendo fugir. Deixo o Porto e as suas águas ribeirinhas com a imagem contínua da revelação aparecida neste mês de Janeiro. Há 15 dias que deâmbulo pela Cidade. Há 15 dias que me sinto um soldado a ser enviado para a frente de batalha.
O Porto parece-me mais deserto. Não encontro quase ninguém nas ruas. Apenas as paredes intactas da cidade resistem ao esfriar da vida nas metrópoles deste mundo. Pergunto-me onde andarão todo. Entro nos cafés vazios e revejo todas as minhas decisões. Já não quero ir. Já não preciso de ir e combater. Agora percebo que fujo da felicidade...

2. Prefiro sem dúvida viajar por estrada. Cá de cima vê-se tudo enquanto de carro a descoberta e a incerteza estão sempre presentes. A cada placa de cruzamento há uma cidade nova, uma aventura eventualmente nova. Cá de cima é tudo igual tirando a incomensurável beleza do mar e do seu encontro com a terra. Não consigo deixar de pensar nela. Tolhe-me toda e qualquer vontade de pensar ou fazer outra coisa...

6 de Janeiro de 2004 - Faltavam 13 dias para o Fim do Mundo

Agora percebo, sem dúvida, aqueles sem-abrigo que se levantam cedo das pontes e caminham o dia todo, sem destino, eira nem beira, até ao escurecer, até à hora em que voltam à ponte.
É a única forma de continuar a ser. Dá-nos uma vida. Caminha-se logo existe-se. Sem destino mas com um propósito. É talvez o único acto são de tal atitude - mandar as pernas caminhar.
À procura de algo que já não se tem. É um tipo diferente de solidão. Sabe-se que se está sozinho mas há tantas pessoas à nossa volta. Caminha-se sempre à procura de algo, de alguém. A caminhar se faz homem quem já não é considerado como tal. A caminhar se mantém homem quem teme vir a perder-se...

8 de Janeiro de 2004 - Faltavam 11 dias para o fim do mundo

Kundera escreveu duas grandes verdades no seu «A Insustentável Leveza do Ser».
A primeira dizia que só a monotonia e a repetição são capazes de trazer a felicidade porque só tal estado reproduz a situação do Homem no paraíso do Antigo Testamento.
Depois, glosando a «condição humana» dos autores franceses, referiu que o Homem avança sempre numa linha recta, quer haja precepícios quer não, porque não suporta a monotonia.
O Homem não suporta a verdade da sua condição!
Pergunto-lhe agora o que achará ele de alguém que avançando queira voltar para trás e sempre assim em diante. O tempo não é uma linha recta como nos ensinou o Einstein e o Lynch. Poderá isso ser considerado uma repetição e como tal trazernos a felicidade? Porque só assim sabemos se vale a pena reconhecermos os nossos erros e contrariar um determinismo que não existe.

11.01.2004 - Faltavam 8 dias para o Fim do Mundo

1. Andar. Andar até parar, cansado. Directo ao sono. Passar as horas. Andar em todas as direcções, de preferência com um destino, de preferência sempre em frente, faz-nos sonhar. E consumir sempre. É a única maneira de nos ligarem. Ninguém deseja um olá, querem uma moeda.
Bocas enormes como as máquinas de tabaco que nos respondem quando inserimos as moedas.
O mundo tornou-se uma gigante máquina de venda humana. Agora compro as palavras que me dirigem. Fazem-se centros de turismo nos sítios onde se vende o pseudo-amor. E tudo se torna pseudo, irreal, porque é assim que a nossa existência caminha...

2. Neva lá fora. Gostava de saber se é possível escrever um romance sem personagens, só paisagens, só locais. Provavelmente vou tentar e este provavelmente diz-me que nunca mais sairá de uma ideia como o cego que tomava LSD, ou o sonho que nos visitava, ou o quotidiano que existe. Tantas ideias, tão pouco papel, nunca consegui perceber. Hoje quero ser pintor, descobri isso num museu, deve ser mais fácil do que com as palavras, por certo.
Preciso de personagens - querem ser? Todos? Tenho uma mas é tão grande que me suplanta e nunca a consegui escrever até agora. É por certo a maior de todas e serei uma estrela quando a conseguir escrever - à Estrela!
Neva sempre! Tem de ser possível escrever um livro só com paisagens, os pintores fazem-no. A luz foge-me à medida que mais pessoas se juntam. Será assim? Desaparecerá o Sol quando formos todos demais? Não teremos capacidade de nos transformar-mos em luz? Porquê? Porque somos todos tão repetitivos? Porque repito incessantemente a minha vida?

3. Começou uma guerra. Tenho que escrever e será assim - começou uma guerra! De Amsterdão a Utrecht, Paris, Barcelona, Lisboa, Nova Iorque, África, Ásia - começou uma guerra! Talvez os pólos, talvez não, um centro comercial, as pequenas ruas, as bicicletas, o campo de certeza! Talvez as montanhas, de certerza o Mar!
Começou uma guerra, não se vê ninguém, ou melhor já não se vê, via-se.
Em Amsterdão nos cafés ainda se vê. Tolerância é a palavra. Fim, acabou, terá que ser um dia, tem que estar próximo. O comboio, o carro muitas vezes, mas ninguém, ninguém a não ser o rio, a chuva, a neve, sim tem que começar com neve, o sol e o mar, a praia...
Tenho que passar pela praia...

12.01.2004 - Faltavam 7 dias para o Fim do Mundo

A neve cai. Tempo de partir. São pequenas gotas de água, geladas, atiradas lateralmente, para cima das pedras, metarmofoseando o ocre das ruas numa pétala espalmada. As borboletas já cá não estão há muito tempo. Desde que construíram aquela enorme estação. 1600 comboios por dia em todas as direcções. Se cá ficassem todos não teriam onde dormir.
A cidade é pequena: dois rios, gémeos, um em cada ponta, musculados, ombros largos, mas não muito que o tronco é cheio e as proporções sempre a Natureza as soube fazer. Depois vários canais. A família é grande. O mais velho é o mais comprido mas também o mais esguio. Profundo dir-se-ia professor de filosofia tal é a atenção que as lojas e os cafés e as esplanadas lhe dão. Como numa Academia de Atenas antiga. As ruas sobranceiras fitam-no do alto das suas faces limpas, dos cabelos arranjados, das peles tratadas. Mas têm pes de barro. Como qualquer membro da família real.
Molhadas, vão ternamente - são ternas as ruas de Utrecht - e quentes, deslizando-se por elas de uma forma rápida, despreocupante, vão ternamente. Com muitos beijos. As ruas de Utrecht têm muitas amigas. E uma mãe. Uma torre antiga, a quem há muito roubaram um filho. Mãe e pai desde então vivem separados, cortados numa existência insustentável. Ela, a torre, sempre foi assim, certa de si, poderosa, independente. Muitas pedras rolaram na sua presença. Uma presença simpática, contudo. Com o tempo tornou-se um sábio.
É respeitada e admirada como um guia a seguir. Do alto da sua idade tornou-se um farol. Tem histórias de curandeira mas também de morte. Já viu e passou muito. Do cimo da sua experiência. Vê-se a cidade toda.
Branquinha. Ligeiramente frágil, de contornos bem definidos, cada parte do seu corpo é bem nítido, bem destacado. Dir-se-ia que um jovem país se apaixonou por ela. Não é muito grande, não lhe cabem os 1600 comboios no seu ventre. Ainda não tem idade para isso.
A pele está branca, falta-lhe energia, exercício, mas sempre penteada, nos seus pequenos contornos verdes e as suas selvagens lantejoulas, enormes e coloridas esvoaçando, querendo sair, viajar. A pele está branca. Cristalizam-se nela pequenas gotas de choro, dos olhos. Dos muitos olhos que a cidade tem. Cada um uma ponte para uma célula. Para que tudo esteja bem vigiado. Para que se conserve. É para isso que foram feitas as cidades. Para sobreviver.
Está tudo branco. A neve cai. É tempo de partir.

15.01.2004 - Faltavam 4 dias para acabar o mundo

1. Amsterdão – Deixo o comboio e ele parte, sem demora, grávido, rumo ao fim do túnel. Haverá água ao fundo do túnel?
Deixo a estação e ela desaparece, na sua grandeza futurista, num tempo em que os séculos se mediam às alturas. Desaparece levada pela água. Terá alguém puxado o autoclismo?
Vermelho, água, barcos, café, castanho, cheiro, distrito, sexo, lojas, postais, animais, modas, fios, electricidade, água, barcos, casas, cafés, companhia das índias ocidentais, animais, água…Amsterdão?
A neve cai, branca, calva, no deserto de água. O comboio desapareceu grávido, a estação defecou e esvaiu-se pelas águas. Será tudo sempre assim. A luz não é natural, há demasiadas panteras cor-de-rosa por aqui.
Um barco, as suas pontes. Estranho acto sexual, tantas vezes penetrado. Dentro e fora da velha cidade. Conseguirá alguma vez esta cidade envelhecer?
A neve calva afunda-se sob os passeios. Frio. Muito frio nas lojas de bikinis. Amsterdão. A estação desaparece, o comboio já fugiu. Terá parido?
Há mundos velhos nesta cidade, terceiros, orientais, velhos. Frios. Há mundos novos, caminhos de guerra, casas de generais, torres de castelo.
Um enorme disco voador, terrestre para além do que dele existe, jaz amarelado no umbigo da cidade. É torto o umbigo, escorre pela cidade. Há demasiada água. Nada no céu. Só neve no chão. Nunca está sozinha a cidade. Solidão só no vermelho dos barcos. Nas casas por cima de água. Haverá monstros no rio?
A cidade desapareceu, a estação também, e tão grande que era. O comboio partiu grávido rumo às águas. Onde estás Amsterdão?
Terá começado uma guerra?

2. Tenho algumas terríveis psicoses que me orientam a vida. De todas elas talvez o vício de pensar seja o ente inicial. Vezes a mais debato-me com diferentes visões da génesis das coisas, tantas como as diferentes religiões do mundo. E tenho isso na minha vida. Todo e qualquer acto tem que ter um outro, um génesis pensado várias dezenas de vezes. Não só os meus actos, mas todos os actos. Tudo quanto é inerte e uma pessoa é para outra, por natureza, inerte. Só após uma estranha reacção química é que acho que é dada vida a cada um. No fundo creio que cada um de nós é um Deus que cria o seu próprio mundo. Á forma e imagem do seu criador.
E como em toda a criação também os meus actos fogem ao controlo do meu pensamento e, inevitavelmente, tenho que me ver com a quebra do paraíso e a descida à Terra. Mas que Deus terá inventado a maçã?
16.01.2004 - Faltavam 3 dias para o fim do mundo

1. Estou cansado, fraco e cada vez mais triste.

2. Não há decisão, pensamento ou acto que faça que fuja desta maldita psicose. Penso para fugir à melancolia, ajo para esboçar um sorriso e solto gargalhadas para chorar esta maldita tristeza.
Penso que me condeno a mim mesmo e acho que descobri a verdade do mundo. Ninguém que pense será alguma vez feliz e de ninguém será o mundo se não pensar toda a sua vida. Compreendo agora que Deus e o mundo se protegem impelindo-nos à procura da felicidade pois só atingirá o Mundo quem chegar à Tristeza profunda.
Admiro, agora, os manicómios, os guetos, as casas dos sem abrigo, os quartos desarrumados dos artistas, a nojeira em que a cultura geralmente se faz, como os grandes centros mundiais. É aí que o homem o deixa de ser e se torna um deus. Meu Deus, o que digo! Aí vamos nós regressar ao mesmo círculo…

3. Um homem puxou do bloco de notas e escreveu sobre mim e a minha presença neste mundo que não é o meu. Faço-lhe o mesmo ao seu lado, num mundo que não é o dele…

17.01.2004 - Faltavam 2 dois dias para o Fim do Mundo

Hoje fui ver o mar e não o vi. Não havia Sol e como tal não havia mar. Apenas areia, vento e algumas ervas, feias. E os homens, sempre. É por isso que não havia mar, porque havia homens e não havia sol. Haia tornou-se então uma cidade sem mar, fugi rápido e voltei ao comboio, afastei-me o mais rápido que podia e voltei ao meu sol interior. Aí até gosto que existam pessoas.

18.01.2004 - Faltava 1 dia para o Fim do Mundo

1. Deixo Amsterdão de mala vazia. Vou mais leve como se o corpo lavado pela chuva de ontem. Saio sem chuva como fui recebido com Sol. Interrogo-me se o jazz me acompanhará. Espero que sim e ao mesmo tempo não seio. Será que embarcaria naquele avião para Beijing? A China deve ser interessante. Casa. Procuro uma onde me sentar e gostar. Casa. Vou para Casa. Mais leve. Atrás dos raios de sol.

2. Acredito empiricamente na herança genética quando penso sobre o meu poder de decisão. Tão depressa me arrependo de tudo o que faço como encontro e vivo a positividade de toda a minha vida futura. Felizmente que me acho mais parecido com minha mãe e a sua forma positiva de viver. O jazz acompanha-me.

3. Gosto de França. O jazz acompanha-me. Voa. Compreendo agora a diferença entre o jazz diurno e o palco à noite. O do dia voa, à noite pesa. Para mim é dia ainda e volto para Portugal à procura de Sol. Há 15 dias fazia tanto Sol. Continuará a fazer e o jazz acompanhar-me-á.

O Fim do Mundo

Quando de repente fez-se luz, o sol brilhou duas vezes. Regresso a casa sem glória. Porque hoje em dia o amor já não é motivo de glória para ninguém. Antes pelo contrário.
Regresso a casa. Agora que a guerra acabou. Mas continuo a não ver ninguém. Talvez porque o amor seja sempre uma interminável solidão.
Regresso a casa agora que a guerra acabou. Não sei no entanto quem ganhou. Choverá durante 40 dias e 40 noites!

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